Hoje se completam 19 anos de Ordenação ao Ministério Pastoral. O pessoal que compareceu ao Culto não entendeu direito, afinal trabalhávamos já há 4 anos por lá. Além disso, por diversas causas, o Culto aconteceu na hora de um jogo de futebol de várzea muito importante.
Eu estava em licença maternidade. E no domingo pela manhã acontecera o Batismo de meu filho.
Coisas de religião, coisas de igreja, que só fazem diferença pra quem gosta de perceber cor em borboleta, reflexo em poça de água, barulho de vento...
E pensar que tudo isso aconteceu não só há 19 anos, como tb no século passado.
Faz tempo.
Minha filha correu pra escola hoje sem eu precisar ficar chamando... e eu ali... mistura de orgulho e temor.
Hoje meu outro filho tinha tarefa de poesia pra fazer, para a escola. Ele leu textos - de Quintana a Cecília, de Drummond a Vinícius. E eu ali... desconfiada de seu crescimento.
E aí me vem Caetano, cantando:
És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo
Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo
De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo
O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo
E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
terça-feira, 31 de maio de 2011
quarta-feira, 25 de maio de 2011
Missão de Deus, nossa Paixão
Dá-nos o pão de cada dia... Mt 6.11
(tema do ano 2010)
Ensino minhas crianças a orar. A princípio, as orações são pessoais, que dizem respeito diretamente ao pequeno mundo que elas vão descobrindo. Depois, passo a ensinar orações aprendidas de outras pessoas, de outros momentos. Algumas são cheias de termos novos para as crianças.
É comum, pois, aparecerem perguntas sobre “misericordiosamente”, “benignidade”, “honra”, e outros tantos termos – bonitos – mas nem sempre muito usados.
E, claro, é uma alegria quando sabem orar, com grupos, com a comunidade, a oração do “Pai-Nosso”. É uma oração que nos vincula a tantas outras pessoas, no mundo inteiro. Dizem que mais de dois milhões de pessoas oram o “Pai-Nosso” a cada domingo. É muito bom saber que se faz parte de um número tão grande.
Se fosse um programa de TV, que calculasse o número de “chamadas”, usando o mesmo “DDD” (discagem direta a Deus), o programa seria um sucesso. Ainda bem que não precisamos pagar nem taxas, nem impostos para fazer parte desta turma.
Na oração do Pai-Nosso, há uma frase que pede pelo “pão”. Há muito tempo conheço a definição de Martim Lutero para o “pão”. E sempre fico muito feliz por estar pedindo, por meio do “pão”, tudo que preciso para viver (sejam coisas necessárias para a sobrevivência, sejam vínculos necessários para a vida).
Mas, foi uma frustração esperar que as crianças pedissem explicação sobre o termo. Eu estava tão preparada para contar a eles, e... eles preferiram perguntar onde eram os “céus”, o que eram “dívidas”, o que era “glória”.
É que pão é uma coisa tão óbvia, não? Faz parte do dia a dia. Ainda mais, se num feriado prolongado, se “inventa” de amassar e assar o pão em casa. Aí é mais óbvio: pão é a mistura de farinha, com outros grãos, com sal, com óleo. Dá pra procurar imagens de campos de trigo, de espigas de trigo, de gente trabalhando lá na roça. Dá pra procurar imagens de gente trabalhando pra fazer muito mais pão do que vai consumir, desde a madrugada, para que gente, na cidade, possa ter pão todos os dias. É gostoso quentinho, é gostoso quando saboreado com amigos e amigas que ajudaram a amassar e assar o pão.
Mas o pão de cada dia é “engolido” na pressa do cotidiano, na praticidade da energia reposta com rapidez e sem maiores preocupações. Claro que se definem os gostos ali: ora, é pão francês, ora é pão italiano, ora é cheio de outras sementes, ora é branco puro. Mas, escolhido o “tipo”, não se pensa mais nisso.
Gente de igreja ama ficar explicando o que Jesus ensinou. Por isso, as perguntas são bonitas, porque falam de palavras difíceis, de um jeito que só é comum para pessoas “iniciadas” na religião. Melhor ainda, quando grupos diferentes falam as mesmas palavras, reclamam de outras palavras. Parece dar “identidade” ao grupo: todos sabem do que se está falando.
Então, colocar o pão numa oração foi algo muito “simples”. Pensar que foi Jesus que ensinou nessa simplicidade toda, dá certa “responsabilidade”.
E é aí que a gente vai vivenciar o óbvio da oração de Jesus: Jesus pede a Deus. Força, coragem e amor não vêm de dentro da gente. Vem de Deus. Jesus pede pão: tão corriqueiro e tão simples. Jesus fala num pedido pra mais gente: nosso! E pede para o dia – diário – não pra vida inteira e nunca mais.
Culpar sistemas, pessoas, organizações é relativamente fácil. Difícil é pedir por ajuda, pedir pão. Difícil é perceber que não vivemos sozinhos. Para pedir pão, precisamos cuidar da terra, do trigo, de empregos, da “sustentabilidade” do mundo.
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje: que a justiça e a bondade nos sejam diárias; que saúde, trabalho, lazer, moradia e locomoção sejam partilhados; que passemos adiante – em misericórdia – o que recebemos benignamente de Deus.
(tema do ano 2010)
Ensino minhas crianças a orar. A princípio, as orações são pessoais, que dizem respeito diretamente ao pequeno mundo que elas vão descobrindo. Depois, passo a ensinar orações aprendidas de outras pessoas, de outros momentos. Algumas são cheias de termos novos para as crianças.
É comum, pois, aparecerem perguntas sobre “misericordiosamente”, “benignidade”, “honra”, e outros tantos termos – bonitos – mas nem sempre muito usados.
E, claro, é uma alegria quando sabem orar, com grupos, com a comunidade, a oração do “Pai-Nosso”. É uma oração que nos vincula a tantas outras pessoas, no mundo inteiro. Dizem que mais de dois milhões de pessoas oram o “Pai-Nosso” a cada domingo. É muito bom saber que se faz parte de um número tão grande.
Se fosse um programa de TV, que calculasse o número de “chamadas”, usando o mesmo “DDD” (discagem direta a Deus), o programa seria um sucesso. Ainda bem que não precisamos pagar nem taxas, nem impostos para fazer parte desta turma.
Na oração do Pai-Nosso, há uma frase que pede pelo “pão”. Há muito tempo conheço a definição de Martim Lutero para o “pão”. E sempre fico muito feliz por estar pedindo, por meio do “pão”, tudo que preciso para viver (sejam coisas necessárias para a sobrevivência, sejam vínculos necessários para a vida).
Mas, foi uma frustração esperar que as crianças pedissem explicação sobre o termo. Eu estava tão preparada para contar a eles, e... eles preferiram perguntar onde eram os “céus”, o que eram “dívidas”, o que era “glória”.
É que pão é uma coisa tão óbvia, não? Faz parte do dia a dia. Ainda mais, se num feriado prolongado, se “inventa” de amassar e assar o pão em casa. Aí é mais óbvio: pão é a mistura de farinha, com outros grãos, com sal, com óleo. Dá pra procurar imagens de campos de trigo, de espigas de trigo, de gente trabalhando lá na roça. Dá pra procurar imagens de gente trabalhando pra fazer muito mais pão do que vai consumir, desde a madrugada, para que gente, na cidade, possa ter pão todos os dias. É gostoso quentinho, é gostoso quando saboreado com amigos e amigas que ajudaram a amassar e assar o pão.
Mas o pão de cada dia é “engolido” na pressa do cotidiano, na praticidade da energia reposta com rapidez e sem maiores preocupações. Claro que se definem os gostos ali: ora, é pão francês, ora é pão italiano, ora é cheio de outras sementes, ora é branco puro. Mas, escolhido o “tipo”, não se pensa mais nisso.
Gente de igreja ama ficar explicando o que Jesus ensinou. Por isso, as perguntas são bonitas, porque falam de palavras difíceis, de um jeito que só é comum para pessoas “iniciadas” na religião. Melhor ainda, quando grupos diferentes falam as mesmas palavras, reclamam de outras palavras. Parece dar “identidade” ao grupo: todos sabem do que se está falando.
Então, colocar o pão numa oração foi algo muito “simples”. Pensar que foi Jesus que ensinou nessa simplicidade toda, dá certa “responsabilidade”.
E é aí que a gente vai vivenciar o óbvio da oração de Jesus: Jesus pede a Deus. Força, coragem e amor não vêm de dentro da gente. Vem de Deus. Jesus pede pão: tão corriqueiro e tão simples. Jesus fala num pedido pra mais gente: nosso! E pede para o dia – diário – não pra vida inteira e nunca mais.
Culpar sistemas, pessoas, organizações é relativamente fácil. Difícil é pedir por ajuda, pedir pão. Difícil é perceber que não vivemos sozinhos. Para pedir pão, precisamos cuidar da terra, do trigo, de empregos, da “sustentabilidade” do mundo.
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje: que a justiça e a bondade nos sejam diárias; que saúde, trabalho, lazer, moradia e locomoção sejam partilhados; que passemos adiante – em misericórdia – o que recebemos benignamente de Deus.
Maternidade e Profissão
(texto para o Jornal Evangélico Luterano)
Na minha infância, meninas treinavam a cada dia para trabalho em casa, e com bonecas, a maternidade. Algumas de nós se revoltavam, e queriam brinquedos nada “mulheris”. Ainda hoje, fala-se que mulheres são criadas para a maternidade e em Dia das Mães, se fala do “dom natural” das várias atribuições que recaem sobre as mães. Mas é treinamento.
É comum dizer que não há dor maior para uma mãe do que a perda de filho. E das 4 crianças que tive, duas morreram e duas celebram a graça da vida, comigo, a cada dia. Demora bastante tempo até que consigamos respirar sem a dor que a morte causa na gente. E como nunca foi inventado um medidor para dor, o melhor é respeitar a dor de outras pessoas, e ver que cada um, cada uma sente a sua dor. Percebo o quanto a salvação em Jesus Cristo entrou na minha vida: Deus se faz gente, é solidário a quem sofre, e enfrentou Ele mesmo o sofrimento para mostrar que há superação, há vida sem dor e sem mágoa na ressurreição. E, se Deus nos acolhe, Ele é forte (fortão!) para carregar nossa raiva, nossas tristezas, nossas dores.
Sou pastora há 23 anos, quando a formação feminina era ainda restrita. Muitas pastoras que iniciaram comigo, ou antes de mim, abriram caminhos nem sempre (re)conhecidos. Também trabalhei por dois anos em um abrigo para crianças e adolescentes geralmente vítimas de violência. Tive a certeza de que cuidados maternos precisavam ser aprendidos e treinados – como fizéramos na infância. E fui experimentando formas diferentes de trabalho.
Lanches, almoços e momentos de lazer são meu trabalho na educação de minha filha e meu filho, fazem parte da minha responsabilidade – e prazer – em ser mãe. Celebrações, conversas e viagens com pessoas da comunidade fazem parte do meu trabalho – e prazer – no pastorado.
Há muito tempo desisti do exercício de dona de casa sem mácula e sem erro. Assumo dificuldades, peço ajuda, demonstro cansaço. A geração de minha mãe experimentou o mercado de trabalho, mas voltou para casa a fim de serem perfeitas “donas de casa”. Minha geração tentou a partilha de tarefas entre mulheres e homens. Mas o cotidiano é mais do que nos ensinam as teorias e vejo muita cobrança e julgamento entre nós, dessa geração. Culpamos pessoas por conta de um sistema de vida, de regras que alienam e absorvem as pessoas num projeto que só contempla reconhecimento, sucesso e glória.
Percebo que há outros formatos de relacionamento surgindo. Dão conta de atividades – e moradias – assumidas em separado para que não haja frustração na convivência. A convivência revela nossos segredos bem guardados, nossos humores e nossos horrores. Muitas religiões e filosofias vão dizer que, por isso, temos que acreditar só em nós mesmos. E vamos definindo lugares e espaços para que a convivência não nos perturbe.
Por isso gosto do jeito luterano de perceber que sozinhas, sozinhos, não somos nada (Lutero disse que éramos um saco de vermes). Qualquer relacionamento é envolto por pecado: ora são palavras, ora são silêncios, ora são gestos, ora são recolhimentos. Todos, todas pecamos. Não merecemos nada, já que tudo o que fazemos é erro e engano. Mas Deus nos santifica e transforma. É esse o poder do Espírito Santo - no Dia do Trabalho, no Dia das Mães.
Vocação ou trabalho?
Das profissões que são vocação nem sempre há o devido pagamento, nem respeito a horários, só dedicação total. Em época de Dia das Mães, exalta-se a vocação exercida na maternidade – inata, gratuita, incansável.
Muito se fala de dignidade se houver emprego. É uma variação do que se lia na entrada dos campos de concentração da Segunda Grande Guerra, na Alemanha: “o trabalho dignifica o homem”. Em época de Dia do Trabalho, exalta-se o profissionalismo que supera stress, cansaço, irritabilidade e traumas constantes.
Dia do Trabalho e Dia das Mães são datas tão próximas e mesmo assim comemoradas em universos separados: o trabalho é uma coisa, vocação (materna, no caso), é outra. Mas são universos da mesma criação de Deus.
Sobre mães recaem cobranças (reunião de pais, na escola, têm, em sua maioria, só mães presentes) e, é bom lembrar que criança mal-educada é quase sempre nominada “filha da mãe”, e quase nunca “filho sem pai”. É, sim, opção de cada pessoa ser mãe ou pai e é opção da sociedade reconhecer e capacitar trabalhadores e trabalhadoras para a tarefa de serem mães e pais.
Segundo Martim Lutero, temos a vocação (de Deus) a respeitar em nossa profissão (trabalho no dia a dia). Deus nos envolve, nos chama e capacita (mães e pais) a colocarmos dons a Seu serviço na Educação, acompanhamento, zelo, orientação, a filhas e filhos e a denunciar o sistema que sempre aperfeiçoa a escravidão.
A maternidade pode usar instrumentos variados: creche, apoio de pessoas próximas, família, escola, atividades diversas. Ainda assim sempre será trabalho. E alegria, se for bem administrada.
Na minha infância, meninas treinavam a cada dia para trabalho em casa, e com bonecas, a maternidade. Algumas de nós se revoltavam, e queriam brinquedos nada “mulheris”. Ainda hoje, fala-se que mulheres são criadas para a maternidade e em Dia das Mães, se fala do “dom natural” das várias atribuições que recaem sobre as mães. Mas é treinamento.
É comum dizer que não há dor maior para uma mãe do que a perda de filho. E das 4 crianças que tive, duas morreram e duas celebram a graça da vida, comigo, a cada dia. Demora bastante tempo até que consigamos respirar sem a dor que a morte causa na gente. E como nunca foi inventado um medidor para dor, o melhor é respeitar a dor de outras pessoas, e ver que cada um, cada uma sente a sua dor. Percebo o quanto a salvação em Jesus Cristo entrou na minha vida: Deus se faz gente, é solidário a quem sofre, e enfrentou Ele mesmo o sofrimento para mostrar que há superação, há vida sem dor e sem mágoa na ressurreição. E, se Deus nos acolhe, Ele é forte (fortão!) para carregar nossa raiva, nossas tristezas, nossas dores.
Sou pastora há 23 anos, quando a formação feminina era ainda restrita. Muitas pastoras que iniciaram comigo, ou antes de mim, abriram caminhos nem sempre (re)conhecidos. Também trabalhei por dois anos em um abrigo para crianças e adolescentes geralmente vítimas de violência. Tive a certeza de que cuidados maternos precisavam ser aprendidos e treinados – como fizéramos na infância. E fui experimentando formas diferentes de trabalho.
Lanches, almoços e momentos de lazer são meu trabalho na educação de minha filha e meu filho, fazem parte da minha responsabilidade – e prazer – em ser mãe. Celebrações, conversas e viagens com pessoas da comunidade fazem parte do meu trabalho – e prazer – no pastorado.
Há muito tempo desisti do exercício de dona de casa sem mácula e sem erro. Assumo dificuldades, peço ajuda, demonstro cansaço. A geração de minha mãe experimentou o mercado de trabalho, mas voltou para casa a fim de serem perfeitas “donas de casa”. Minha geração tentou a partilha de tarefas entre mulheres e homens. Mas o cotidiano é mais do que nos ensinam as teorias e vejo muita cobrança e julgamento entre nós, dessa geração. Culpamos pessoas por conta de um sistema de vida, de regras que alienam e absorvem as pessoas num projeto que só contempla reconhecimento, sucesso e glória.
Percebo que há outros formatos de relacionamento surgindo. Dão conta de atividades – e moradias – assumidas em separado para que não haja frustração na convivência. A convivência revela nossos segredos bem guardados, nossos humores e nossos horrores. Muitas religiões e filosofias vão dizer que, por isso, temos que acreditar só em nós mesmos. E vamos definindo lugares e espaços para que a convivência não nos perturbe.
Por isso gosto do jeito luterano de perceber que sozinhas, sozinhos, não somos nada (Lutero disse que éramos um saco de vermes). Qualquer relacionamento é envolto por pecado: ora são palavras, ora são silêncios, ora são gestos, ora são recolhimentos. Todos, todas pecamos. Não merecemos nada, já que tudo o que fazemos é erro e engano. Mas Deus nos santifica e transforma. É esse o poder do Espírito Santo - no Dia do Trabalho, no Dia das Mães.
Vocação ou trabalho?
Das profissões que são vocação nem sempre há o devido pagamento, nem respeito a horários, só dedicação total. Em época de Dia das Mães, exalta-se a vocação exercida na maternidade – inata, gratuita, incansável.
Muito se fala de dignidade se houver emprego. É uma variação do que se lia na entrada dos campos de concentração da Segunda Grande Guerra, na Alemanha: “o trabalho dignifica o homem”. Em época de Dia do Trabalho, exalta-se o profissionalismo que supera stress, cansaço, irritabilidade e traumas constantes.
Dia do Trabalho e Dia das Mães são datas tão próximas e mesmo assim comemoradas em universos separados: o trabalho é uma coisa, vocação (materna, no caso), é outra. Mas são universos da mesma criação de Deus.
Sobre mães recaem cobranças (reunião de pais, na escola, têm, em sua maioria, só mães presentes) e, é bom lembrar que criança mal-educada é quase sempre nominada “filha da mãe”, e quase nunca “filho sem pai”. É, sim, opção de cada pessoa ser mãe ou pai e é opção da sociedade reconhecer e capacitar trabalhadores e trabalhadoras para a tarefa de serem mães e pais.
Segundo Martim Lutero, temos a vocação (de Deus) a respeitar em nossa profissão (trabalho no dia a dia). Deus nos envolve, nos chama e capacita (mães e pais) a colocarmos dons a Seu serviço na Educação, acompanhamento, zelo, orientação, a filhas e filhos e a denunciar o sistema que sempre aperfeiçoa a escravidão.
A maternidade pode usar instrumentos variados: creche, apoio de pessoas próximas, família, escola, atividades diversas. Ainda assim sempre será trabalho. E alegria, se for bem administrada.
Santificado seja o teu nome
Nosso Deus tem um nome: nome que não é estático e não semeia concorrência – Deus cria e ama tudo o que criou. É nome que é movimento e não é formatado – Deus vem e mora entre nós. É nome que traz a liberdade para o mundo cheio de medo, cheio de valores de mercado - Deus nos chama e fazer parte do seu reino não é coisa que se compre.
É Deus mesmo quem santifica seu nome. É dali – de Deus – que vem a santidade. Nenhuma pessoa ou mesmo qualquer parte da criação de Deus tem o poder que Deus tem: o de santificar. É diferente de dizer que flores ou paisagens lindas santificam o nome de Deus. Deus fez toda a criação, Ele tornou-a santa. Vem d’Ele toda a graça, toda a vida.
A oração que aprendemos de Jesus é um pedido para que esse nome seja usado entre nós: que entre nós não aconteçam relacionamentos que machuquem ou deixem machucar; que entre nós não aconteçam momentos em que alguém se considere melhor do que toda a criação de Deus; que entre nós não aconteça desrespeito à sua criação.
A oração do “Pai-Nosso” nos une a mais de dois milhões de pessoas que oram a cada domingo, em reuniões, encontros ou em suas casas. Ela começa com a constatação que nosso Deus é diferente, é separado, do mundo que vemos e que Ele mesmo criou. E ensina a não acreditar em sistemas de vida que carregam medo e injustiça, ou estruturas de um mundo que sobrevive com inverdades e produção de miséria.
Para refletir, leiaGálatas 5:1
É Deus mesmo quem santifica seu nome. É dali – de Deus – que vem a santidade. Nenhuma pessoa ou mesmo qualquer parte da criação de Deus tem o poder que Deus tem: o de santificar. É diferente de dizer que flores ou paisagens lindas santificam o nome de Deus. Deus fez toda a criação, Ele tornou-a santa. Vem d’Ele toda a graça, toda a vida.
A oração que aprendemos de Jesus é um pedido para que esse nome seja usado entre nós: que entre nós não aconteçam relacionamentos que machuquem ou deixem machucar; que entre nós não aconteçam momentos em que alguém se considere melhor do que toda a criação de Deus; que entre nós não aconteça desrespeito à sua criação.
A oração do “Pai-Nosso” nos une a mais de dois milhões de pessoas que oram a cada domingo, em reuniões, encontros ou em suas casas. Ela começa com a constatação que nosso Deus é diferente, é separado, do mundo que vemos e que Ele mesmo criou. E ensina a não acreditar em sistemas de vida que carregam medo e injustiça, ou estruturas de um mundo que sobrevive com inverdades e produção de miséria.
Para refletir, leiaGálatas 5:1
sexta-feira, 7 de janeiro de 2011
Sílvia - 2.vice presidenta da IECLB
Ah, que processo longo...
Primeiro disseram que éramos necessárias para “melhorar a aparência” dos homens estudantes que estudavam Teologia. Mas que não se excedesse 10% do quadro discente.
Depois, falaram que deveríamos “buscar lugar”, sozinhas, já que uma estrutura não podia mandar nas comunidades.
E fomos pelas comunidades, pelos campos de trabalho – avenidas e vielas – descobrindo trabalho – muito trabalho.
Temos desempenhado bem nossa tarefa de pastoras, no zelo, no cuidado, no engajamento. Modificamos, com nossa presença, a linguagem, o jeito de celebrar. Modificamos mesmo sem querer. Tínhamos o chamado de Jesus – que modificou o jeito da comunidade judaica percebendo e chamando mulheres para o seu movimento.
Houve um dia que fomos consideradas “peças decorativas”, daquelas que não são imprescindíveis.
Em muitos casos, enxergaram-nos como concorrentes, sem perceber que falávamos somente da multiforme graça de Deus.
É a primeira vez que uma de nós aceita a indicação de ser da “presidência” da igreja. Pode não ser muito, para quem está acostumado a exercer cargos. Mas nós não estamos. Temos trabalhado como muitas antes de nós: na assessoria, no planejamento, no desempenho das tarefas.
Ter uma mulher na presidência da igreja pode não modificar em nada a estrutura da organização. Mas essa mulher que foi escolhida no último Concílio, representa muitas de nós. Porque não se coloca acima de nós, não se coloca como melhor do que ninguém, não quis o voto por ganância de poder ou por capricho.
Ela havia sido indicada em muitos Concílios antes deste. Mas como outras tantas mulheres que trabalham e têm crianças, preferiu sempre zelar por suas filhas até que elas estivessem adultas, mesmo que isso representasse uma certa “ausência” nos Concílios a que fora indicada.
Por isso, a nossa alegria está perpassando as comunidades. Alguém de nós vai estar pertinho das decisões mais elementares, deixando a igreja ainda mais apta a escutar clamores diferentes.
Estamos felizes sim, por esse dia. A presença feminina não está sendo nem fruto de “ordens internacionais”, nem de busca por peças decorativas. A presença de Sílvia é fruto do engajamento anterior em comunidades, da escuta e convívio com outras ministras como ela e atuará neste vínculo, nesta forma de “presidir”.
Abraços sororais.
Primeiro disseram que éramos necessárias para “melhorar a aparência” dos homens estudantes que estudavam Teologia. Mas que não se excedesse 10% do quadro discente.
Depois, falaram que deveríamos “buscar lugar”, sozinhas, já que uma estrutura não podia mandar nas comunidades.
E fomos pelas comunidades, pelos campos de trabalho – avenidas e vielas – descobrindo trabalho – muito trabalho.
Temos desempenhado bem nossa tarefa de pastoras, no zelo, no cuidado, no engajamento. Modificamos, com nossa presença, a linguagem, o jeito de celebrar. Modificamos mesmo sem querer. Tínhamos o chamado de Jesus – que modificou o jeito da comunidade judaica percebendo e chamando mulheres para o seu movimento.
Houve um dia que fomos consideradas “peças decorativas”, daquelas que não são imprescindíveis.
Em muitos casos, enxergaram-nos como concorrentes, sem perceber que falávamos somente da multiforme graça de Deus.
É a primeira vez que uma de nós aceita a indicação de ser da “presidência” da igreja. Pode não ser muito, para quem está acostumado a exercer cargos. Mas nós não estamos. Temos trabalhado como muitas antes de nós: na assessoria, no planejamento, no desempenho das tarefas.
Ter uma mulher na presidência da igreja pode não modificar em nada a estrutura da organização. Mas essa mulher que foi escolhida no último Concílio, representa muitas de nós. Porque não se coloca acima de nós, não se coloca como melhor do que ninguém, não quis o voto por ganância de poder ou por capricho.
Ela havia sido indicada em muitos Concílios antes deste. Mas como outras tantas mulheres que trabalham e têm crianças, preferiu sempre zelar por suas filhas até que elas estivessem adultas, mesmo que isso representasse uma certa “ausência” nos Concílios a que fora indicada.
Por isso, a nossa alegria está perpassando as comunidades. Alguém de nós vai estar pertinho das decisões mais elementares, deixando a igreja ainda mais apta a escutar clamores diferentes.
Estamos felizes sim, por esse dia. A presença feminina não está sendo nem fruto de “ordens internacionais”, nem de busca por peças decorativas. A presença de Sílvia é fruto do engajamento anterior em comunidades, da escuta e convívio com outras ministras como ela e atuará neste vínculo, nesta forma de “presidir”.
Abraços sororais.
sexta-feira, 25 de junho de 2010
misturas...
Somos uma mistura de temperos, de gostos, de tradições. Engelbrecht's. Mistura cultural, mistura étnica, mistura de linguagens e comportamentos. Ao redor de uma só mesa, nossas vidas são partilhadas - lembranças de tempos passados juntos - em infâncias e adolescências, contação de causos individuais - em dias de trabalho ou de estudo, partilha de relatos de outras pessoas - preferencialmente fofoca de família, e muita esperança engolida junto ao alimento.
Esperança é alimento. Vai nos saciar até o próximo abraço (- esse povo não sabe abraçar, mãe? pergunta a Luiza meio sem acreditar... - é filha, mas eles se esforçam). E a gente se esforça ao não misturar o lixo, a ficar em silêncio na rua...
Rimos das graças traduzidas, dos olhares carinhosos que nos foram presenteados de graça, pela responsabilidade de avós malucos que nos fizeram em mundos tão diferentes. Rimos dos sabores misturados, que só existem no meio de gente muito misturada. Rimos da vida, que teima em nos fazer chorar a cada despedida.
Sempre nos despedimos "para sempre". É um gosto esquisito, que denuncia o que aprendemos de períodos que não nos vimos. Sempre haverá alguém faltando no próximo encontro. Mas, se a gente se esforçar, sempre haverá alguém para conhecer. A gente só "perde" se não souber mais se encontrar. Aí, vai ficar sem alimento.
Porque o alimento da alma é a graça do encontro.
segunda-feira, 26 de abril de 2010

Quando o conheci, era o primeiro pastor “não-alemão” por ali. Será que trabalharia tanto quanto os outros?, diziam. Deixava brincarem com seu sobrenome, como se os sobrenomes germânicos não tivessem, também, significado.
Encontrei-o mais tarde, e de um jeito bem esquisito, fomos trabalhar juntos. Caminhar juntos, ele repetia. Eu achava graça que ele acreditava nisso. Achando graça, eu trabalhei junto. É, caminhei junto. Mesmo querendo ser anarquista, não querendo ser igual a ele.
O jeito diminutivo que me chamava, dava conta do tempo enorme que nos conhecíamos. Mesmo que eu tivesse dobrado de tamanho no decorrer dos anos, o apelido me era carinhoso.
Mas ele cansava. A foto foi um momento desses. Do tipo: será que vocês não vão sair disso? E às vezes, ele quis que os limites fossem mais claros. Reclamou da minha passividade. Empurrou algumas decisões difíceis. E segurou outras tantas mais difíceis ainda.
Admirei-me de sua capacidade em mudar de opinião. A redação inclusiva de gênero foi incorporada muito rapidamente depois da primeira discussão. Ríamos de palavras nem sempre bem empregadas, já que tradução nem sempre ajudava a tradição. E ele riu da minha dificuldade em usar brincos usando o talar.
Há muitas saudades, hoje. O texto da pregação era sobre a ressurreição de Tabita/Dorcas. E aqui está a necessidade de mostrar “os vestidos” que Homero ajudou a fazer. Como aquelas mulheres, deu vontade de ficar querendo que a ressurreição acontecesse num ato mágico, repentino, no meio duma briga teológica.
E a gente descobre que a ressurreição é mais do que ter o HSP de volta. Descobre que ainda temos um monte de preconceito entre nós, descobre que temos uma dificuldade ainda maior em colocar limite, mas descobre que houve vida. E que aprendemos muito com essa vida.
Contei-lhe, no último café que tomamos, dos brincos que ganhei das mulheres da Paróquia. Fiquei devendo um texto sobre vocação luterana de jovens adultos, a partir de seu relato apaixonado sobre o trabalho da Catarina.
O tio Homero ensinou um outro jeito de trabalhar, sim. Menos alemão, mais camarada, menos competitivo, mais “pastoral”. Nossas diferenças podem ser trabalhadas olho no olho, face a face, sem precisar utilizar o escárnio indireto. É. O cara trabalhava pra caramba.
quarta-feira, 7 de abril de 2010

Visitamo-lo em sua casa. Não era sua. Mas ele precisava ocupá-la. Não só esperavam isso dele, como também ele queria esse direito.
Para mim sempre foi difícil "exigir" direitos. Algo do tipo: "seja sempre boazinha"... E, cedendo, a gente se nega inúmeras vezes.
A bola, num quarto, trouxe-me a cena novamente à memória. Ainda mais porque meu compadre não está mais por aí. Fico tentando ensinar a seu afilhado esse "direito" de "ocupar espaço".
A bola precisa da gente pra ser reflexo da nossa alegria. E é bom que não esperemos demais para demonstrar nossos afetos e nossas vontades... a vida passa num curto passe entre pernas de jogadores e ficamos sem o que recordar.
Vida é pra ser ocupada. Mesmo que não "fique bem" as demonstrações de carinho explícitas, mesmo que a gente precise sussurrar nossas saudades.
sábado, 26 de dezembro de 2009

A convivência entre gerações me deixa curiosa. Penso frequentemente em "quem sobrevive a isso"? Valores, métodos, vínculos são diferentes. Cansam a uma e outra parte.
Numa cena quase cinematográfica, percebo minha filha lendo à escrivaninha, e minha mãe mexendo em um canteiro do quintal. Separadas por uma grade, iluminadas pelo mesmo sol, agraciadas pelo mesmo vento. Cada uma com seu ofício, uma virada para um lado e outra para o outro.
Mesmo assim, e de um jeito bonito, a cena se alojou na fotografia. E a convivência, cheia de intempéries, se revela assim: clara!
Nada de vínculos obrigatórios. O vínculo maior está no exercício do convívio, da graça da Vida.
mostrar horizonte...

Uma das minhas grandes preocupações na educação (quase) solitária de minhas crianças, foi o fato de "cumprir papéis"...
À mãe, cabe o papel do afago e do aconchego, do abraço que redime e acolhe. Ao pai, assim me disseram, cabe o abraço que protege (as costas), mas que ajuda a criança a olhar adiante, ao horizonte.
O medo de estar superprotegendo - e ainda mais consciente do meu papel materno - me fazia tremer ante a perspectiva de não estar ajudando nem à Luiza, nem ao João Elias, a perceberem o mundo, a descobrirem vida além do aconchego.
Luiza há muito descobriu o mundo das letras, dos livros, do horizonte quase infinito das palavras empregadas de formas diferentes.
Numa volta "esperta" de uma programação fora de casa, o olhar do João se estendeu. Foi além do "arroz com feijão", do "futebol". Encheu o diálogo de perguntas, percebeu animais e vegetação.
Ui.
De repente, percebi que o abraço que dou, foi suporte, sim, pra uma visão além do conhecido. Não me atrevo a dizer que supro o papel paterno. Mas foi bom ver o experimento do olhar adiante... novidade pra ele, alento pra mim... ano bom.
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