segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

quinta-feira, 27 de dezembro de 2012

Natal é safra...

Natal é mesmo um tempo de "safra", no pastorado.
Na minha primeira paróquia, eu tinha a impressão de que o povo tinha todo o tempo do mundo. Parava tudo para ir a enterros, a casamentos. Feriados eram bem desfrutados. Visitas eram marcadas e se ia com toda a família...
Como eu vinha de um contexto de cidade pequena, isso não me era comum.
Mas... era só vir a época de safra e... era um deus-nos-acuda.
Ninguém mais tinha tempo para nada. Noites eram "viradas" em plantões de filhos, filhas, pais, mães, avôs, avós e quem mais tivesse com disposição para "pegar junto".

Foi ali que comecei a falar que épocas de Páscoa e de Natal eram épocas de "safra". A gente vira noite e dia com celebrações e conversas. São épocas difíceis, onde o apelo comercial deixa as pessoas bastante frágeis. São receitas prontas sobre família, sobre amor, sobre comunhão... projeções que machucam quem perdeu alguém, quem não tem dinheiro para comprar, quem não tem dinheiro para viajar, quem não pode estar com quem ama. Quem não tem tudo isso, sofre e quer ajuda!

Ah, essa época de safra. Dá um trabalho!
Se em outras comunidades, as celebrações me faziam percorrer distâncias em tempos absurdos, e celebrar com muita comida todas as noites (ui, meu estágio!), aqui o telefone é constante, as visitas são pedidas e a conversa pastoral (o termo em alemão é tão lindo: "cuidado da alma") vira noites e dias.

Sei que nos próximos meses, serão poucos os momentos tão intensos como os dessa semana. Foi a safra! Diferente de safra agrícola, o que me move não é o retorno financeiro que virá nos próximos meses. É uma safra de gratidão: Deus nos deu vida comunitária até aqui, nada melhor que vivenciar isso de pertinho!


terça-feira, 9 de outubro de 2012

Divórcio...

Esta foi a forma encontrada por um casal cambojano, para repartir sua casa, ao se divorciar.

O casamento, tal conhecemos, que envolve amor e sentimento é relativamente novo em nossa sociedade. Antes disso era um contrato social, onde havia deveres a serem cumpridos e direitos a serem exigidos. Casamento era algo cultural, que unia homem e mulher, para que tivessem filhos reconhecidamente daquele pai.

É isso que encontramos no Evangelho de Marcos, quando Jesus fala contra o divórcio. Ali, o direito da mulher, de sobreviver na velhice, estava sendo desrespeitado.  No divórcio da época, o homem se desvinculava da esposa por qualquer motivo. E com isso, ela se encontrava desamparada, já que todos direito à propriedade, a trabalho eram dos homens.

Quando Jesus se posiciona contra o divórcio, ele denuncia esse rompimento de contrato e fala da necessidade de apoio familiar - que começa com a "nova" família, e não precisa dos vínculos anteriores: "deixa a casa de seu pai e junta-se com a mulher".

A religião cristã "fortaleceu" o contrato social. Abençoou união, e fez, no caso da igreja romana, do casamento um "sacramento". Faz parte de mais um passo em direção ao amor de Deus, diz-se. O casamento que conhecemos no ocidente envolve sentimentos.

A igreja luterana aceita o divórcio. Sabe que, por envolver sentimento, traz sofrimento. Agora não mais focado no direito da mulher, mas se diz que homens e mulheres sofrem ao passar por um divórcio. Terapias são indicadas, acolhimento é indicado para que o sofrimento possa ser superado em menos tempo. O contrato civil é feito em cartório, e na igreja se recebe uma "bênção". Não é um "sacramento".

Essa bênção também acontece "até que a morte os separe". Mas se entende que as pessoas se modifiquem, mudem seu jeito de pensar e de viver, e... se divorciem.

Claro que existe ali, uma preocupação pelos direitos - de filhos e filhas principalmente, da mulher, do homem... Por isso que se diz que divórcio é um jogo de advogados... são eles que irão representar os direitos do casal... e separar os bens (até do jeito da casinha da foto acima).

Mas encarar o divórcio como "separação de sentimentos", nos encaminha para outras reflexões. A vida das pessoas não pode estar a mercê de uma ligação amorosa. Ela precisa estar vinculada à Vida. Cada pessoa, chamada por Deus a ser seu filho, a ser sua filha precisa saber que o amor de Deus é muito maior do que qualquer amor que experimentemos em nosso cotidiano.

E aí, qualquer pessoa que tenha a certeza do amor de Deus -  e desse sim, ninguém separa - pode amar, deixar de amar, sofrer rejeição, amar de novo.

Quando Lutero explica o primeiro mandamento, ele o faz assim: "devemos temer e amar a Deus e confiar nele acima de tudo". (O pastor que dirigia meu "Ensino Confirmatório" enfatizava: "esse 'tudo' são coisas e pessoas!") Nossa confiança maior não pode estar no nosso "modo de vida", nem em nossas projeções adolescentes, nem em nossos relacionamentos.

A liberdade - presente maior de Deus em nossas vidas - não pode sucumbir diante de um casamento ou de um divórcio.





segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Cura... oração...

Imagem do Rio São João, Barra de São João, RJ

Sempre ouço gente dizendo "ah, quando as dificuldades aparecem, a gente apela pra tudo".

Lembrei de Lori: Com a criança "com pouca chance de vida" nos braços, foi lhe oferecida uma oração de cura, com unção. Lembro de seu jeito dizendo: "Não quero. Eu já pedi. Deus é que decide".

 Pra mim, foi um testemunho de alguém, que conhecia outras culturas que indicavam tantos outros ritos para cura, para melhora, mas que não se desesperava diante da "sombra da morte". 

Depois de algum tempo, foi minha a vez de passar por situação semelhante, e, dentro de um hospital, vieram duas ofertas de cura por gente religiosa que estava perto. Quem nega "ajuda" nessa hora, pode parecer arrogante. Afinal, as pessoas só querem "o bem" - e ficam dando conselhos de cura o tempo inteiro. Nessa hora, sabendo que já se fez o possível, só se pode "se deitar na mão de Deus".

Ao ler o texto de Tiago 5, lembrei da discussão: estava na Bíblia, era de se fazer. E entendi a Lori, naquele momento: ali, era se render ao desespero. Ela já havia feito o possível... não precisava disso para conseguir superar dificuldades.

Seu garoto viveu muito mais do que anunciava a medicina. Claro que momentos difíceis foram frequentes... mas se deitar na mão de Deus foi a maior lição para mim...

terça-feira, 25 de setembro de 2012

Luz do mundo

Em algumas igrejas, a figura do globo, cheia de velas a serem acesas, incomoda tanto que não se consegue deixar de perguntar se pode se acender...
Pessoas cristãs foram chamadas por Jesus Cristo para serem "luz do mundo".
A dor é tanta, ao nosso redor, que a escuridão toma conta.
É um número grande de gente caída por miséria, outros tantos por terem des-graçado gente igual a si.
Outro número grande é de gente no chão por doença, tantas vezes desassistida, pela corrupção que roubou o direito à saúde.
E ainda há os que, por não conseguirem fazer nada, caem pela depressão, pela ausência de solidariedade consigo ou com a pessoa ao lado.
E nós somos a luz do mundo.
Isso nos deveria também incomodar a ponto de perguntar: dá pra acender?
Nós somos a luz do mundo!
Que bom que existem algumas já acesas, outras esperando alguma chama... que queimem bastante e incomodem bastante... porque luz incomoda... principalmente a quem fica dormindo.


segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Abre tua boca em favor...

Abre a tua boca a favor do mudo, 
pela causa de todos que são designados à destruição 
Provérbios 31:8

Ver esse versículo num cartaz, exposto na porta de entrada de uma igreja luterana na Alemanha foi algo um tanto inusitado.
Diante de um reaparecimento de movimentos "nazi's", a igreja resolveu logo se posicionar a favor dos que, de antemão, são alvo de terror e ameaças.
A escrita colorida, claro, indica o colorido da convivência múltipla - de etnias, de gêneros, de idades.
Nossa vida é uma sucessão de gestos. Que sejam de acolhimento, sempre.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

grata...



Há muito tempo tento dizer, em vez do tradicional "obrigada", uma alternativa. Então escrevo "grata", ou tento ser original a cada vez.

Percebo agora que esse jeito de agradecer é, também, uma confissão de fé. Se a gente acredita que vai desenvolvendo, crescendo, melhorando... então a obrigação se faz presente. Como as provas que minha filha e meu filho experimentam na escola. São obrigados.

Mas a tal graça insiste em ser diferente.
Agradecer é a percepção de que a gente foi contemplada com algo a mais... como presente inesperado.

Agradecer implica em olhar o que está acontecendo, em perceber o que passou. Por isso se agradece o que recebeu. Sem precisar desenvolver nada com isso, sem precisar melhorar, ou crescer.

Agradecer, dar graça é como "ponto de chegada". Tipo "até aqui nos trouxe Deus".
Bem diferente do que dizer que ainda é necessário - obrigatório - correr pra vida!

Lembrei de momentos de celebração luteranos: enfeita-se porque se quer agra-dar. É jeito de se dar graças.

Afinal, Vida já é presente. Graças a Deus!


sábado, 3 de março de 2012


Anjos figuram desejos
De proteção
De companhia

Anjos nos contam
De dias medrosos
De noites insanas
De faltas que há

Anjos são figuras
De linguagem
Da arte

Anjos têm jeito de agradecer
O que deixamos de agradecer...

terça-feira, 13 de setembro de 2011


Tem horas que a morte precisa ser detectada. Numa igreja na Alemanha, ouvimos a história dessa imagem de uma criança toda deformada. A imagem ficava sobre uma pia de Batismo. A imagem denunciava sinais de morte por todo o corpo da criança.
O horror da morte passa por corpos de crianças e de adultos. O horror da morte passa por conceitos e padrões em nossa convivência.

Fico lembrando de sinais de morte em minha vida. Deformou minha existência, meus sentimentos, meu jeito de encarar a vida.

A morte deforma nossa esperança. A gente imagina um mundo diferente, e vem a morte e zás... corta o jeito de viver.

Só que a criança horrenda apontava com uma grande mão para a cruz. E acredito mesmo que os sinais de morte vão se esvaindo diante da cruz. Primeiro são denunciados. Depois são percebidos no cotidiano. E devagarinho são superados.

Os conceitos e preconceitos precisam ser denunciados. Quando percebidos no cotidiano provocam negação: "eu não!" E se percebe o quanto se serve à morte e não à vida.

A superação demora. ô coisa demorada. Mas acredito que, se não acontecer do meu jeito e no meu tempo, vai ter tempo pra isso.

Por enquanto, permaneço na tentativa de superar a dor. A figura horrenda estava sobre a pia batismal. O Batismo é o início da Vida... e desse ninguém tira.

terça-feira, 26 de julho de 2011

Homossexualidade na comunidade cristã

Nossa reflexão busca da Bíblia (sola scriptura) o entendimento para a prática de inclusão de pessoas homossexuais nas comunidades da IECLB. Esta inclusão não pode estar sujeita a liberalismos de opinião, não aprofundadas nos conhecimentos científicos atuais, em repetição de fórmulas religiosas literárias, nem a casuísmos de esta ou aquela comunidade (irmão de presbítero pode, mas um desconhecido não). Ao entendermos que, pela fé (sola fide) podemos nos perceber irmãos e irmãs, sujeitos ao pecado, mas dispostos à comunhão que é dada por graça (sola gratia) por Deus a nós, sem mérito nosso. A nossa vivência de comunhão – com Deus e com o próximo – é que nos dá a certeza do amor de Deus em nosso meio.

Bíblia

As comunidades cristãs retratadas nos 4 Evangelhos não falam de homossexualidade como o movimento de Paulo o fez, em seus escritos. Enquanto as comunidades de Marcos, Mateus, Lucas e João parecem focar em outros problemas de convivência humana (onde a justiça e amor são temas óbvios), já Paulo vai transferindo sua própria cultura às novas comunidades. São traçados comportamentos específicos, por exemplo, para mulheres (1 Coríntios 14.34; 1 Coríntios 11. 5-6) . Paulo também apresenta a forma de convívio que lhe era perfeita, dada a sua cultura. "Quero, entretanto, que saibais ser Cristo o cabeça de todo homem, e o homem, o cabeça da mulher, e Deus, o cabeça de Cristo... Porque, na verdade, o homem não deve cobrir a cabeça, por ser ele imagem e glória de Deus, mas a mulher é glória do homem. Porque o homem não foi feito da mulher, e sim a mulher, do homem... Portanto, deve a mulher, por causa dos anjos, trazer véu na cabeça, como sinal de autoridade." 1 Co 11: 3,7,8-10.

Pode haver também em Paulo uma releitura da cultura grega – Paulo é um homem que vive um mundo Greco-romano com afinco (é soldado, escreve grego). A homossexualidade nessas duas culturas definia níveis de poder masculino: os nobres gregos podiam se utilizar dos rapazes até criarem barba (e isso certamente denota um forte caráter de pedofilia ); os romanos, como prova final de conquista a algum povo, além do estupro às mulheres, estupravam os homens prisioneiros de guerra. Temos que levar em conta como as relações homossexuais nas comunidades Greco-romanas eram concebidas e porque Paulo se debate tanto com elas. A condenação do corpo é assunto constante para ele, e ele elabora de maneira especial em Romanos 7. E sabemos que ele mantinha atitudes de autopunição para que não corresse o risco de perder sua salvação (1 Coríntios 9.27 Antes subjugo o meu corpo, e o reduzo à servidão, para que, pregando aos outros, eu mesmo não venha de alguma maneira a ficar reprovado).

Paulo tem também em suas raízes a cultura hebraica. No Antigo Testamento, em contextos de discussão sobre pureza e impureza, os comportamentos em geral, também sexuais, faziam parte da lei do Antigo Testamento – em Gênesis (Gn 19, 1-11), Levítico (Lv 18,22 e 20, 13), Juízes (Jz 19,22-30). O mínimo que disso se constata é que a homossexualidade já existia, desde o Antigo Testamento. Mesmo assim, é bom destacar que o grande pecado de Sodoma e Gomorra, se lido com atenção, não eram os “bacanais” que ganharam destaque no Cinema e na retórica evangélica, e sim a falta de hospitalidade daquele povo. Aos nossos olhos hodiernos, a oferta de Ló em entregar as suas duas filhas aos homens que batiam à porta, soa como violência paterna. E deveria, isso sim, provocar manifestações contrárias em nossa cultura. A exclusão de pessoas (não merecedoras de inclusão em bênçãos, vida em comunhão plena) é, essa sim, atitude “sodomita”. E se essas pessoas forem “anjos”?

Mesmo a epístola de Tiago, tão “problemática” para Lutero, nem de longe cita a homossexualidade. Outras cartas, outros livros da Bíblia focam tantas outras situações no convívio comunitário que, seria uma estupidez total, tornar a discussão sobre homossexualidade, bênção a homossexuais, sacerdócio de homossexuais, algo que dividiria a igreja, algo central na discussão de pessoas cristãs.

A dificuldade na aceitação de pessoas homossexuais torna visíveis as diferenças na interpretação e na vivência do Evangelho. É compreensível que a sociedade hebraica estivesse preocupada com relações sexuais que produzissem mais gente. O “povo eleito” precisava ocupar a terra, precisava gente que substituísse gente que tombara em batalhas pela conquista da terra. A história de Tamar revela os múltiplos pecados dos irmãos que não procriaram (um jogava sua semente no chão! Gênesis 38). Descendentes sanguíneos (Ruth é exceção) são a garantia do sustento na velhice, são o apoio da sociedade para desamparados (órfãos e viúvas). A homossexualidade não gerava filhos e filhas e, portanto, não servia para a sociedade de Israel – era algo como trair a expectativa do clã. A Bíblia relata e sinaliza vários problemas de ordem sexual. Davi e Batseba(2 Samuel 11), as filhas de Ló que se deitam com o pai para gerar descendentes (Gênesis 19). Tais situações não são novas dentro da história da Bíblia, mas são relidas. No Novo Testamento, mais uma vez o assunto vem à tona, quando Jesus ressuscita o filho da viúva de Naim (Lucas 7.11-15), restabelecendo a dignidade e o amparo à viúva.

Evangelho proclamado é Evangelho que acolhe, lança fora o medo e provoca mudança na ética, no cotidiano. Deixa claros os relacionamentos, transforma-os pelo amor e pela comunhão. Por exemplo, alguns “crimes sexuais”, quando mulheres – e só mulheres (sic!) – podiam ser mortas por “legítima defesa da honra” no Brasil, só puderam ser denunciados ao se estudar textos como quando Jesus se depara com a situação da mulher “adúltera”, em que diz claramente: “quem estiver livre de pecado atire a primeira pedra” (João 8.7). Paulo pode, sim, estar denunciando pedofilia, pode estar denunciando abuso de poder, pode estar denunciando violência ou falta de higiene. E por isso mesmo, Evangelho precisa ser lido em profundidade e amor.

Tornar pessoas homossexuais, por si só, não merecedoras da graça de Deus é algo abominável, uma vez que solidariedade, amparo, sustento na velhice ou nas dificuldades, hoje em dia, são comuns a cidadãos e cidadãs – qualquer seja o gênero ou a orientação sexual. A centralidade do Evangelho é a justiça e a dignidade que não se atém a vínculos sanguíneos. O Reino de Deus é anunciado para que haja transformação em nossa vida já aqui, de maneira a revelar poderes que não trazem vida. Novas formas familiares dão conta da adoção de crianças e adolescentes em situação de risco, inclusive, por pessoas homossexuais. Há uma frase que resume essa forma de atuar diretamente na educação e amparo de outras pessoas: “melhor dois pais do que nenhum”.

Condicionar a bênção de Deus à orientação sexual é exercer um poder sobre a vida da outra pessoa, que só Deus tem. Práticas sexuais de pessoas homossexuais acontecem também em relacionamentos heterossexuais: qual é o problema, então, que a Bíblia nos traz?


IECLB

Há muito tempo a IECLB, igreja inserida na cultura brasileira, entende a equidade nas relações de gênero.C É interessante que, do mesmo movimento de Paulo, lemos, em Gálatas 3.26: “Não há judeu nem grego; não há escravo nem livre; não há homem nem mulher; porque todos vós sois um em Cristo Jesus.”

A ordenação feminina ainda hoje fomenta discussão entre as grandes igrejas cristãs. Em nossa igreja de Confissão Luterana no Brasil e em tantos outros, não só ordenam-se mulheres como “ministras”, como também há um grande número de mulheres que “carregam” as comunidades. Mesmo assim, a leitura que se faz quando há ausência de mulheres em alguns fóruns decisórios é a de falta de oportunidade ou de cunho cultural. Outras “sociedades”, que nos vêem de longe, denunciam essa ausência como uma violência institucional contra mulheres.

O Evangelho que anunciamos nos coloca contra a parede, porque, nas palavras de Jesus, não só palavras e ações são “pecaminosas”. Em Mateus 5. 21-26 lemos: “Ouvistes que foi dito aos antigos: Não matarás; e: Quem matar estará sujeito a julgamento. Eu, porém, vos digo que todo aquele que (sem motivo) se irar contra seu irmão estará sujeito a julgamento; e quem proferir um insulto a seu irmão estará sujeito a julgamento do tribunal; e quem lhe chamar: Tolo, estará sujeito ao inferno de fogo. Se, pois, ao trazeres ao altar a tua oferta, ali te lembrares de que teu irmão tem alguma cousa contra ti, deixa perante o altar a tua oferta, vai primeiro reconciliar-te com teu irmão; e, então, voltando, faze a tua oferta. Entra em acordo sem demora com o teu adversário, enquanto estás com ele a caminho, para que o adversário não te entregue ao juiz, o juiz ao oficial de justiça, e sejas recolhido à prisão. Em verdade te digo que não sairás dali, enquanto não pagares o último centavo.”

A exclusão de pessoas diferentes a uma e outra orientação, seja ela sexual ou não, não as deixando tomar parte na comunhão de filhos e filhas de Deus, pode ser uma obediência a Levítico, a Romanos, a 1 Coríntios, mas é uma temeridade se entendemos o Reino de Deus como anúncio maior de Deus que é Amor (1 João 4.8: “Aquele que não ama não conhece a Deus; porque Deus é amor), ou se pensamos nas categorias que fazem parte do anuncio do juízo final (Mateus 25.34-36: Vinde, benditos de meu Pai, possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo; Porque tive fome, e destes-me de comer; tive sede, e destes-me de beber; era estrangeiro, e hospedastes-me; Estava nu, e vestistes-me; adoeci, e visitastes-me; estive na prisão, e fostes ver-me.

Como evangélicos de confissão luterana também diremos que nada de bom sobrou na natureza humana (Romanos 3.23 Porque todos pecaram e destituídos estão da glória de Deus). Nenhum relacionamento – por si só – nos habilita a sermos mais “santos”, menos “santos”. Somos santificados somente pela graça de Deus. Assim também, o que nos torna pecadores e pecadoras é o pecado que já nasce conosco (Confissão de Augsburgo) e não essa ou aquela orientação sexual. Sexo sempre é pecado, também em relações heterossexuais, quando o poder e a violência fazem parte. O exercício da sexualidade sempre é graça, já que faz parte da Criação em sua totalidade.

A salvação de Jesus Cristo habilita uma nova “formatação” de nossas vidas, não por nossas atitudes, nem por nossas “causas”. Apenas por sermos chamados e chamadas por Deus. No Batismo, Deus não coloca restrições na sexualidade das pessoas – mas nos posiciona em uma outra relação parental: já não somos estranhos uns aos outros, mas somos irmãos e irmãs – linhagem concebida pelo amor de Cristo e partilhada no cálice da salvação. A justiça e o amor são o legado dado por Cristo – e não o anúncio de juízo por conta de nossas afetividades diversas. O mesmo Paulo elabora em Romanos 8.28:“E sabemos que todas as coisas contribuem juntamente para o bem daqueles que amam a Deus, daqueles que são chamados segundo o seu propósito.”

Com toda a discussão sobre matrimônio (originalmente para zelar pelo direito da mater/mãe), com toda a discussão sobre casamento (onde uniões civis são consideradas como tal, colaborando para que direitos de pessoas homossexuais sejam respeitados principalmente na divisão de “patrimônio”) é necessário perceber orientação segura para que não sobrecarreguemos o Evangelho com nossa cultura, com nossas perspectivas de certo e errado também nos relacionamentos. União de pessoas – independente de seu gênero ou orientação sexual – acontece quando há reconhecimento afetivo do outro, e precisa ser sempre “reinventado” para que não caia nas amarras de relacionamentos que usam a subjugação e a dependência de pessoas, com o argumento de ser uma questão cultural.

Ao lermos Mateus 5.29, descobrimos que o “desejo impuro é adultério no coração”. São palavras diretas contra o divórcio. Dentro da cultura hebraica, o divórcio colaborava com a desassistência a crianças e mulheres. Já Paulo usa o juízo rápido: em 1 Coríntios 6.9, condena “os ladrões, os adúlteros, os homossexuais”. Ora, nossa igreja abençoa a “segunda união” de casais, já que entendeu que, culturalmente, não temos as mesmas dificuldades que hebreus . E no Brasil, o presidente que assinou a lei de divórcio era Luterano – talvez porque ele não precisou se submeter à posição da Igreja Católica Romana.

A homossexualidade, em si, não é condenada pela medicina; não é considerada “perversão” pela psicologia. Não há uma unidade científica sobre sua origem (genética, social, cultural, psicológica). Muito se estudou, nada se concluiu. A única certeza é que não é uma “escolha” da pessoa e por isso mesmo não podemos dizer que a pessoa está se submetendo ao pecado. Se a igreja condenar a homossexualidade, estaremos repetindo erros como o da igreja antiga, ao condenar Galileu , que contradizia a Bíblia ao defender que a Terra era redonda. Estaremos próximos à prática de Testemunhas de Jeová, que usam determinados textos bíblicos para não permitirem a transfusão de sangue. Homossexualidade não é “perversão”, nem “doença”, nem “opção”, nem “distúrbio”. Pode se manifestar em violência, discriminação, “bulling” social quando pensada e rotulada como tal. Homossexualidade é uma orientação sexual, presente inclusive em relações de animais.

A homossexualidade não atrapalha a fé, mas nossos conceitos, estes atrapalham sim. Pessoas homossexuais podem viver na “fé (que) produz novidade de vida”(2 Co 5.15-19), e “os frutos do Espírito” (Gl 5.22-26: amor, gozo, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fé, mansidão, temperança) pois estes aparecem na vida de qualquer pessoa, independente de sua orientação sexual. A ética de nosso cotidiano precisa testemunhar tais valores do fruto do Espírito – e não viver em exclusão baseada nas culturas antigas de clã e tomada da terra.

Podemos condenar a violência e o desrespeito. Podemos concordar com Paulo e condenar práticas de pedofilia comuns nos “ginásios” gregos e estupros de guerra. Podemos condenar o desamparo de crianças ante o divórcio de seus pais e mães. A igreja que legitima, atualmente, uniões de “não-virgens”, ou de “divorciados” fica estarrecida diante de uniões homossexuais?

Família

Jesus denunciou o patriarcalismo com sua própria vida. Nasceu de uma mulher sozinha, a paternidade foi assumida somente depois da intervenção direta de Deus com seu anjo; foi participar da vida do Templo sem ter pedido "permissão" à família, e inaugurou um novo tempo também nas relações "familiares". Tanto que nós nos chamamos de irmãos e irmãs sem nenhum traço de sangue, nem de etnia, nem de qualquer outra "linhagem".

Ainda hoje se fala da grande crise da sociedade humana desde que mulheres foram consideradas iguais aos homens. Também relacionamentos pós-divórcio, famílias constituídas por mães e pais diversos são questionadas. O ministério feminino nas igrejas, ainda é motivo de grandes discussões e separações. E, em meio a tanta “crise”, há uma busca pelo "paraíso perdido", uma reedição de valores de época do reinado, numa formação hierárquica que não ajuda a perceber o "novo céu e nova terra". Não há receita bíblica e sim, relato de várias épocas, de variadas sociedades, que tentam trazer suas experiências cotidianas para o “entendimento de Deus”.

Pares homossexuais também dão forma a outros modelos familiares. Muitos repetem a receita de poder que existe no modelo patriarcal, quando uma das pessoas exerce maior poder que outra. Também relacionamentos homossexuais precisam ser “admoestados”,e cuidados pastoralmente. Com certeza podemos nos lembrar de Eclesiastes 7. 20-22: " Não há homem justo sobre a terra que faça o bem e não peque. Pois tu sabes que muitas vezes tu mesmo tens amaldiçoado a outros." Mas, com certeza, relacionamentos homossexuais podem testemunhar vida em amor e gratidão na educação de filhos e filhas, no trabalho, na sociedade, na igreja.

Comunidade

Perceber a ação do Espírito Santo em nossos dias nos move a confessar que a revelação de Deus é diferente em vários momentos da história. Mas, confessamos um Deus de amor e misericórdia, que já foi percebido outrora como um Deus de ira e carnificina nas histórias de Moisés, Elias, Davi e tantos outros.

O entendimento de pecado varia conforme as experiências de cada personagem bíblico. Ananias pecou por ter enganado a comunidade. Safira pecou por ter sido conivente com o marido. O perdão possibilitou a Zaqueu uma mudança de vida diante do povo inteiro, à mulher hemorrágica foi possível uma inserção na sociedade, a mulher samaritana falou “face a face” com Jesus, mostrando sua dignidade antes mesmo de perceber “nova vida”. São histórias de sustentação social, muito diferente do que limitar-se à discussão pecado X não-pecado; aceito X não-aceito; homossexual X heterossexual. O anúncio do Evangelho ao eunuco (Atos 8.38-39), o posterior Batismo, atesta outro tipo de “adesão”, não condicionada à vida sexual ou até assexual da pessoa.

Quando a vida é transformada pelo poder de Deus, não há só mudança na ética (obras) – e isso independe da sexualidade. As pessoas são “resgatadas” pelo poder de Deus. Tem vida em comunhão, já renovada aqui e agora – e isso independe de seu gênero ou sua orientação sexual. Se pessoas têm “vida sexual ativa”, mesmo assim, e sempre, serão meus irmãos e irmãs, mesmo que não produzam filhos e filhas, ou que os tenham durante a adolescência, ou que sofram relações de violência. Pessoas homossexuais foram batizadas na mesma fé, são chamadas de filhos e filhas de Deus. Não precisam seguir uma organização religiosa de gueto. São da Igreja. E dela necessitam para que a comunhão seja experimentada, e, por serem chamadas por Deus, dão Seu testemunho ao mundo.

Em outras religiões, diz-se que a comunhão acontece quando outras “entidades” tomam conta dos corpos e das vidas das pessoas. Também comportamentos homossexuais são aceitos em momentos determinados, de formas determinadas. Enquanto isso, nós, pessoas cristãs, falamos de comunhão plena, de pessoas em sua totalidade, que respondem à vida por causa da comunhão com Deus, carentes do perdão diário, falamos da resposta ao Deus único, infinito e pessoal. Pela comunhão, Deus pode se revelar na crise de fé de alguma pessoa homossexual, que a si mesma não se aceita, não se entende. Temos histórias e vivências de gente que, sem poder contar com a comunhão, cai no desespero e atenta contra a própria vida. Temos histórias de famílias envergonhadas, ou que reagem de forma violenta, baseada em orientações pretensamente evangélicas. É a falha total da “comunidade”, que se torna “pedra de tropeço” na aceitação plena de irmãos e irmãs.

É “pedra de tropeço” para pessoas que, eventualmente, queiram viver de forma familiar reconhecida pela comunidade. Vamos semeando “poréns” e “acasos” e tornamos a vontade de Deus inacessível a quem tenta buscar na comunidade comunhão, testemunho e serviço. Esquecemos de proclamar o amor de Deus, e vamos buscando, nas metáforas das palavras politicamente corretas, símbolos e sinais que possam dizer o que é certo e errado, o que é aceito e não aceito no nosso meio Evangélico. Esquecemos de ser a mão de Deus que segura irmãos e irmãs que sofrem com sua orientação sexual, que não foi escolhida nem desenvolvida. Foi assim que Deus os fez, foi assim que Deus as fez – e viu que tudo o que havia feito era muito bom.

terça-feira, 31 de maio de 2011

31 de maio

Hoje se completam 19 anos de Ordenação ao Ministério Pastoral. O pessoal que compareceu ao Culto não entendeu direito, afinal trabalhávamos já há 4 anos por lá. Além disso, por diversas causas, o Culto aconteceu na hora de um jogo de futebol de várzea muito importante.

Eu estava em licença maternidade. E no domingo pela manhã acontecera o Batismo de meu filho.

Coisas de religião, coisas de igreja, que só fazem diferença pra quem gosta de perceber cor em borboleta, reflexo em poça de água, barulho de vento...
E pensar que tudo isso aconteceu não só há 19 anos, como tb no século passado.

Faz tempo.

Minha filha correu pra escola hoje sem eu precisar ficar chamando... e eu ali... mistura de orgulho e temor.
Hoje meu outro filho tinha tarefa de poesia pra fazer, para a escola. Ele leu textos - de Quintana a Cecília, de Drummond a Vinícius. E eu ali... desconfiada de seu crescimento.

E aí me vem Caetano, cantando:

És um senhor tão bonito
Quanto a cara do meu filho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Vou te fazer um pedido
Tempo Tempo Tempo Tempo

Compositor de destinos
Tambor de todos os ritmos
Tempo Tempo Tempo Tempo
Entro num acordo contigo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Por seres tão inventivo
E pareceres contínuo
Tempo Tempo Tempo Tempo
És um dos deuses mais lindos
Tempo Tempo Tempo Tempo

Que sejas ainda mais vivo
No som do meu estribilho
Tempo Tempo Tempo Tempo
Ouve bem o que te digo
Tempo Tempo Tempo Tempo

Peço-te o prazer legítimo
E o movimento preciso
Tempo Tempo Tempo Tempo
Quando o tempo for propício
Tempo Tempo Tempo Tempo

De modo que o meu espírito
Ganhe um brilho definido
Tempo Tempo Tempo Tempo
E eu espalhe benefícios
Tempo Tempo Tempo Tempo

O que usaremos pra isso
Fica guardado em sigilo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Apenas contigo e migo
Tempo Tempo Tempo Tempo

E quando eu tiver saído
Para fora do teu círculo
Tempo Tempo Tempo Tempo
Não serei nem terás sido
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Ainda assim acredito
Ser possível reunirmo-nos
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo
Num outro nível de vínculo
Tempo, Tempo, Tempo, Tempo

Portanto peço-te aquilo
E te ofereço elogios
Tempo Tempo Tempo Tempo
Nas rimas do meu estilo
Tempo Tempo Tempo Tempo

quarta-feira, 25 de maio de 2011

Missão de Deus, nossa Paixão

Dá-nos o pão de cada dia... Mt 6.11
(tema do ano 2010)

Ensino minhas crianças a orar. A princípio, as orações são pessoais, que dizem respeito diretamente ao pequeno mundo que elas vão descobrindo. Depois, passo a ensinar orações aprendidas de outras pessoas, de outros momentos. Algumas são cheias de termos novos para as crianças.
É comum, pois, aparecerem perguntas sobre “misericordiosamente”, “benignidade”, “honra”, e outros tantos termos – bonitos – mas nem sempre muito usados.
E, claro, é uma alegria quando sabem orar, com grupos, com a comunidade, a oração do “Pai-Nosso”. É uma oração que nos vincula a tantas outras pessoas, no mundo inteiro. Dizem que mais de dois milhões de pessoas oram o “Pai-Nosso” a cada domingo. É muito bom saber que se faz parte de um número tão grande.
Se fosse um programa de TV, que calculasse o número de “chamadas”, usando o mesmo “DDD” (discagem direta a Deus), o programa seria um sucesso. Ainda bem que não precisamos pagar nem taxas, nem impostos para fazer parte desta turma.
Na oração do Pai-Nosso, há uma frase que pede pelo “pão”. Há muito tempo conheço a definição de Martim Lutero para o “pão”. E sempre fico muito feliz por estar pedindo, por meio do “pão”, tudo que preciso para viver (sejam coisas necessárias para a sobrevivência, sejam vínculos necessários para a vida).
Mas, foi uma frustração esperar que as crianças pedissem explicação sobre o termo. Eu estava tão preparada para contar a eles, e... eles preferiram perguntar onde eram os “céus”, o que eram “dívidas”, o que era “glória”.
É que pão é uma coisa tão óbvia, não? Faz parte do dia a dia. Ainda mais, se num feriado prolongado, se “inventa” de amassar e assar o pão em casa. Aí é mais óbvio: pão é a mistura de farinha, com outros grãos, com sal, com óleo. Dá pra procurar imagens de campos de trigo, de espigas de trigo, de gente trabalhando lá na roça. Dá pra procurar imagens de gente trabalhando pra fazer muito mais pão do que vai consumir, desde a madrugada, para que gente, na cidade, possa ter pão todos os dias. É gostoso quentinho, é gostoso quando saboreado com amigos e amigas que ajudaram a amassar e assar o pão.
Mas o pão de cada dia é “engolido” na pressa do cotidiano, na praticidade da energia reposta com rapidez e sem maiores preocupações. Claro que se definem os gostos ali: ora, é pão francês, ora é pão italiano, ora é cheio de outras sementes, ora é branco puro. Mas, escolhido o “tipo”, não se pensa mais nisso.
Gente de igreja ama ficar explicando o que Jesus ensinou. Por isso, as perguntas são bonitas, porque falam de palavras difíceis, de um jeito que só é comum para pessoas “iniciadas” na religião. Melhor ainda, quando grupos diferentes falam as mesmas palavras, reclamam de outras palavras. Parece dar “identidade” ao grupo: todos sabem do que se está falando.
Então, colocar o pão numa oração foi algo muito “simples”. Pensar que foi Jesus que ensinou nessa simplicidade toda, dá certa “responsabilidade”.
E é aí que a gente vai vivenciar o óbvio da oração de Jesus: Jesus pede a Deus. Força, coragem e amor não vêm de dentro da gente. Vem de Deus. Jesus pede pão: tão corriqueiro e tão simples. Jesus fala num pedido pra mais gente: nosso! E pede para o dia – diário – não pra vida inteira e nunca mais.
Culpar sistemas, pessoas, organizações é relativamente fácil. Difícil é pedir por ajuda, pedir pão. Difícil é perceber que não vivemos sozinhos. Para pedir pão, precisamos cuidar da terra, do trigo, de empregos, da “sustentabilidade” do mundo.
O pão nosso de cada dia dá-nos hoje: que a justiça e a bondade nos sejam diárias; que saúde, trabalho, lazer, moradia e locomoção sejam partilhados; que passemos adiante – em misericórdia – o que recebemos benignamente de Deus.

Maternidade e Profissão

(texto para o Jornal Evangélico Luterano)
Na minha infância, meninas treinavam a cada dia para trabalho em casa, e com bonecas, a maternidade. Algumas de nós se revoltavam, e queriam brinquedos nada “mulheris”. Ainda hoje, fala-se que mulheres são criadas para a maternidade e em Dia das Mães, se fala do “dom natural” das várias atribuições que recaem sobre as mães. Mas é treinamento.
É comum dizer que não há dor maior para uma mãe do que a perda de filho. E das 4 crianças que tive, duas morreram e duas celebram a graça da vida, comigo, a cada dia. Demora bastante tempo até que consigamos respirar sem a dor que a morte causa na gente. E como nunca foi inventado um medidor para dor, o melhor é respeitar a dor de outras pessoas, e ver que cada um, cada uma sente a sua dor. Percebo o quanto a salvação em Jesus Cristo entrou na minha vida: Deus se faz gente, é solidário a quem sofre, e enfrentou Ele mesmo o sofrimento para mostrar que há superação, há vida sem dor e sem mágoa na ressurreição. E, se Deus nos acolhe, Ele é forte (fortão!) para carregar nossa raiva, nossas tristezas, nossas dores.
Sou pastora há 23 anos, quando a formação feminina era ainda restrita. Muitas pastoras que iniciaram comigo, ou antes de mim, abriram caminhos nem sempre (re)conhecidos. Também trabalhei por dois anos em um abrigo para crianças e adolescentes geralmente vítimas de violência. Tive a certeza de que cuidados maternos precisavam ser aprendidos e treinados – como fizéramos na infância. E fui experimentando formas diferentes de trabalho.
Lanches, almoços e momentos de lazer são meu trabalho na educação de minha filha e meu filho, fazem parte da minha responsabilidade – e prazer – em ser mãe. Celebrações, conversas e viagens com pessoas da comunidade fazem parte do meu trabalho – e prazer – no pastorado.
Há muito tempo desisti do exercício de dona de casa sem mácula e sem erro. Assumo dificuldades, peço ajuda, demonstro cansaço. A geração de minha mãe experimentou o mercado de trabalho, mas voltou para casa a fim de serem perfeitas “donas de casa”. Minha geração tentou a partilha de tarefas entre mulheres e homens. Mas o cotidiano é mais do que nos ensinam as teorias e vejo muita cobrança e julgamento entre nós, dessa geração. Culpamos pessoas por conta de um sistema de vida, de regras que alienam e absorvem as pessoas num projeto que só contempla reconhecimento, sucesso e glória.
Percebo que há outros formatos de relacionamento surgindo. Dão conta de atividades – e moradias – assumidas em separado para que não haja frustração na convivência. A convivência revela nossos segredos bem guardados, nossos humores e nossos horrores. Muitas religiões e filosofias vão dizer que, por isso, temos que acreditar só em nós mesmos. E vamos definindo lugares e espaços para que a convivência não nos perturbe.
Por isso gosto do jeito luterano de perceber que sozinhas, sozinhos, não somos nada (Lutero disse que éramos um saco de vermes). Qualquer relacionamento é envolto por pecado: ora são palavras, ora são silêncios, ora são gestos, ora são recolhimentos. Todos, todas pecamos. Não merecemos nada, já que tudo o que fazemos é erro e engano. Mas Deus nos santifica e transforma. É esse o poder do Espírito Santo - no Dia do Trabalho, no Dia das Mães.

Vocação ou trabalho?
Das profissões que são vocação nem sempre há o devido pagamento, nem respeito a horários, só dedicação total. Em época de Dia das Mães, exalta-se a vocação exercida na maternidade – inata, gratuita, incansável.
Muito se fala de dignidade se houver emprego. É uma variação do que se lia na entrada dos campos de concentração da Segunda Grande Guerra, na Alemanha: “o trabalho dignifica o homem”. Em época de Dia do Trabalho, exalta-se o profissionalismo que supera stress, cansaço, irritabilidade e traumas constantes.
Dia do Trabalho e Dia das Mães são datas tão próximas e mesmo assim comemoradas em universos separados: o trabalho é uma coisa, vocação (materna, no caso), é outra. Mas são universos da mesma criação de Deus.
Sobre mães recaem cobranças (reunião de pais, na escola, têm, em sua maioria, só mães presentes) e, é bom lembrar que criança mal-educada é quase sempre nominada “filha da mãe”, e quase nunca “filho sem pai”. É, sim, opção de cada pessoa ser mãe ou pai e é opção da sociedade reconhecer e capacitar trabalhadores e trabalhadoras para a tarefa de serem mães e pais.
Segundo Martim Lutero, temos a vocação (de Deus) a respeitar em nossa profissão (trabalho no dia a dia). Deus nos envolve, nos chama e capacita (mães e pais) a colocarmos dons a Seu serviço na Educação, acompanhamento, zelo, orientação, a filhas e filhos e a denunciar o sistema que sempre aperfeiçoa a escravidão.
A maternidade pode usar instrumentos variados: creche, apoio de pessoas próximas, família, escola, atividades diversas. Ainda assim sempre será trabalho. E alegria, se for bem administrada.

Santificado seja o teu nome

Nosso Deus tem um nome: nome que não é estático e não semeia concorrência – Deus cria e ama tudo o que criou. É nome que é movimento e não é formatado – Deus vem e mora entre nós. É nome que traz a liberdade para o mundo cheio de medo, cheio de valores de mercado - Deus nos chama e fazer parte do seu reino não é coisa que se compre.
É Deus mesmo quem santifica seu nome. É dali – de Deus – que vem a santidade. Nenhuma pessoa ou mesmo qualquer parte da criação de Deus tem o poder que Deus tem: o de santificar. É diferente de dizer que flores ou paisagens lindas santificam o nome de Deus. Deus fez toda a criação, Ele tornou-a santa. Vem d’Ele toda a graça, toda a vida.
A oração que aprendemos de Jesus é um pedido para que esse nome seja usado entre nós: que entre nós não aconteçam relacionamentos que machuquem ou deixem machucar; que entre nós não aconteçam momentos em que alguém se considere melhor do que toda a criação de Deus; que entre nós não aconteça desrespeito à sua criação.
A oração do “Pai-Nosso” nos une a mais de dois milhões de pessoas que oram a cada domingo, em reuniões, encontros ou em suas casas. Ela começa com a constatação que nosso Deus é diferente, é separado, do mundo que vemos e que Ele mesmo criou. E ensina a não acreditar em sistemas de vida que carregam medo e injustiça, ou estruturas de um mundo que sobrevive com inverdades e produção de miséria.
Para refletir, leiaGálatas 5:1

sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Sílvia - 2.vice presidenta da IECLB

Ah, que processo longo...

Primeiro disseram que éramos necessárias para “melhorar a aparência” dos homens estudantes que estudavam Teologia. Mas que não se excedesse 10% do quadro discente.

Depois, falaram que deveríamos “buscar lugar”, sozinhas, já que uma estrutura não podia mandar nas comunidades.

E fomos pelas comunidades, pelos campos de trabalho – avenidas e vielas – descobrindo trabalho – muito trabalho.

Temos desempenhado bem nossa tarefa de pastoras, no zelo, no cuidado, no engajamento. Modificamos, com nossa presença, a linguagem, o jeito de celebrar. Modificamos mesmo sem querer. Tínhamos o chamado de Jesus – que modificou o jeito da comunidade judaica percebendo e chamando mulheres para o seu movimento.

Houve um dia que fomos consideradas “peças decorativas”, daquelas que não são imprescindíveis.

Em muitos casos, enxergaram-nos como concorrentes, sem perceber que falávamos somente da multiforme graça de Deus.

É a primeira vez que uma de nós aceita a indicação de ser da “presidência” da igreja. Pode não ser muito, para quem está acostumado a exercer cargos. Mas nós não estamos. Temos trabalhado como muitas antes de nós: na assessoria, no planejamento, no desempenho das tarefas.

Ter uma mulher na presidência da igreja pode não modificar em nada a estrutura da organização. Mas essa mulher que foi escolhida no último Concílio, representa muitas de nós. Porque não se coloca acima de nós, não se coloca como melhor do que ninguém, não quis o voto por ganância de poder ou por capricho.

Ela havia sido indicada em muitos Concílios antes deste. Mas como outras tantas mulheres que trabalham e têm crianças, preferiu sempre zelar por suas filhas até que elas estivessem adultas, mesmo que isso representasse uma certa “ausência” nos Concílios a que fora indicada.

Por isso, a nossa alegria está perpassando as comunidades. Alguém de nós vai estar pertinho das decisões mais elementares, deixando a igreja ainda mais apta a escutar clamores diferentes.

Estamos felizes sim, por esse dia. A presença feminina não está sendo nem fruto de “ordens internacionais”, nem de busca por peças decorativas. A presença de Sílvia é fruto do engajamento anterior em comunidades, da escuta e convívio com outras ministras como ela e atuará neste vínculo, nesta forma de “presidir”.


Abraços sororais.

sexta-feira, 25 de junho de 2010

misturas...





Somos uma mistura de temperos, de gostos, de tradições. Engelbrecht's. Mistura cultural, mistura étnica, mistura de linguagens e comportamentos. Ao redor de uma só mesa, nossas vidas são partilhadas - lembranças de tempos passados juntos - em infâncias e adolescências, contação de causos individuais - em dias de trabalho ou de estudo, partilha de relatos de outras pessoas - preferencialmente fofoca de família, e muita esperança engolida junto ao alimento.

Esperança é alimento. Vai nos saciar até o próximo abraço (- esse povo não sabe abraçar, mãe? pergunta a Luiza meio sem acreditar... - é filha, mas eles se esforçam). E a gente se esforça ao não misturar o lixo, a ficar em silêncio na rua...

Rimos das graças traduzidas, dos olhares carinhosos que nos foram presenteados de graça, pela responsabilidade de avós malucos que nos fizeram em mundos tão diferentes. Rimos dos sabores misturados, que só existem no meio de gente muito misturada. Rimos da vida, que teima em nos fazer chorar a cada despedida.

Sempre nos despedimos "para sempre". É um gosto esquisito, que denuncia o que aprendemos de períodos que não nos vimos. Sempre haverá alguém faltando no próximo encontro. Mas, se a gente se esforçar, sempre haverá alguém para conhecer. A gente só "perde" se não souber mais se encontrar. Aí, vai ficar sem alimento.

Porque o alimento da alma é a graça do encontro.

segunda-feira, 26 de abril de 2010


Quando o conheci, era o primeiro pastor “não-alemão” por ali. Será que trabalharia tanto quanto os outros?, diziam. Deixava brincarem com seu sobrenome, como se os sobrenomes germânicos não tivessem, também, significado.

Encontrei-o mais tarde, e de um jeito bem esquisito, fomos trabalhar juntos. Caminhar juntos, ele repetia. Eu achava graça que ele acreditava nisso. Achando graça, eu trabalhei junto. É, caminhei junto. Mesmo querendo ser anarquista, não querendo ser igual a ele.

O jeito diminutivo que me chamava, dava conta do tempo enorme que nos conhecíamos. Mesmo que eu tivesse dobrado de tamanho no decorrer dos anos, o apelido me era carinhoso.

Mas ele cansava. A foto foi um momento desses. Do tipo: será que vocês não vão sair disso? E às vezes, ele quis que os limites fossem mais claros. Reclamou da minha passividade. Empurrou algumas decisões difíceis. E segurou outras tantas mais difíceis ainda.

Admirei-me de sua capacidade em mudar de opinião. A redação inclusiva de gênero foi incorporada muito rapidamente depois da primeira discussão. Ríamos de palavras nem sempre bem empregadas, já que tradução nem sempre ajudava a tradição. E ele riu da minha dificuldade em usar brincos usando o talar.

Há muitas saudades, hoje. O texto da pregação era sobre a ressurreição de Tabita/Dorcas. E aqui está a necessidade de mostrar “os vestidos” que Homero ajudou a fazer. Como aquelas mulheres, deu vontade de ficar querendo que a ressurreição acontecesse num ato mágico, repentino, no meio duma briga teológica.

E a gente descobre que a ressurreição é mais do que ter o HSP de volta. Descobre que ainda temos um monte de preconceito entre nós, descobre que temos uma dificuldade ainda maior em colocar limite, mas descobre que houve vida. E que aprendemos muito com essa vida.

Contei-lhe, no último café que tomamos, dos brincos que ganhei das mulheres da Paróquia. Fiquei devendo um texto sobre vocação luterana de jovens adultos, a partir de seu relato apaixonado sobre o trabalho da Catarina.

O tio Homero ensinou um outro jeito de trabalhar, sim. Menos alemão, mais camarada, menos competitivo, mais “pastoral”. Nossas diferenças podem ser trabalhadas olho no olho, face a face, sem precisar utilizar o escárnio indireto. É. O cara trabalhava pra caramba.

quarta-feira, 7 de abril de 2010





Visitamo-lo em sua casa. Não era sua. Mas ele precisava ocupá-la. Não só esperavam isso dele, como também ele queria esse direito.
Para mim sempre foi difícil "exigir" direitos. Algo do tipo: "seja sempre boazinha"... E, cedendo, a gente se nega inúmeras vezes.
A bola, num quarto, trouxe-me a cena novamente à memória. Ainda mais porque meu compadre não está mais por aí. Fico tentando ensinar a seu afilhado esse "direito" de "ocupar espaço".
A bola precisa da gente pra ser reflexo da nossa alegria. E é bom que não esperemos demais para demonstrar nossos afetos e nossas vontades... a vida passa num curto passe entre pernas de jogadores e ficamos sem o que recordar.
Vida é pra ser ocupada. Mesmo que não "fique bem" as demonstrações de carinho explícitas, mesmo que a gente precise sussurrar nossas saudades.

sábado, 26 de dezembro de 2009




A convivência entre gerações me deixa curiosa. Penso frequentemente em "quem sobrevive a isso"? Valores, métodos, vínculos são diferentes. Cansam a uma e outra parte.
Numa cena quase cinematográfica, percebo minha filha lendo à escrivaninha, e minha mãe mexendo em um canteiro do quintal. Separadas por uma grade, iluminadas pelo mesmo sol, agraciadas pelo mesmo vento. Cada uma com seu ofício, uma virada para um lado e outra para o outro.
Mesmo assim, e de um jeito bonito, a cena se alojou na fotografia. E a convivência, cheia de intempéries, se revela assim: clara!
Nada de vínculos obrigatórios. O vínculo maior está no exercício do convívio, da graça da Vida.

mostrar horizonte...


Uma das minhas grandes preocupações na educação (quase) solitária de minhas crianças, foi o fato de "cumprir papéis"...
À mãe, cabe o papel do afago e do aconchego, do abraço que redime e acolhe. Ao pai, assim me disseram, cabe o abraço que protege (as costas), mas que ajuda a criança a olhar adiante, ao horizonte.
O medo de estar superprotegendo - e ainda mais consciente do meu papel materno - me fazia tremer ante a perspectiva de não estar ajudando nem à Luiza, nem ao João Elias, a perceberem o mundo, a descobrirem vida além do aconchego.
Luiza há muito descobriu o mundo das letras, dos livros, do horizonte quase infinito das palavras empregadas de formas diferentes.
Numa volta "esperta" de uma programação fora de casa, o olhar do João se estendeu. Foi além do "arroz com feijão", do "futebol". Encheu o diálogo de perguntas, percebeu animais e vegetação.
Ui.
De repente, percebi que o abraço que dou, foi suporte, sim, pra uma visão além do conhecido. Não me atrevo a dizer que supro o papel paterno. Mas foi bom ver o experimento do olhar adiante... novidade pra ele, alento pra mim... ano bom.